Estava a esperar meu ônibus e primeiro me chego, um estranho ali em um território já configurado, uma porção da cidade que possui um repertório bem definido, de pessoas, de modos de vida, de linhas de ônibus. O estranho ali era eu, primeira vez neste lugar, ou neste não lugar, lugar de passagem, de espera, de trabalho, mas também de encontros, de alegrias, existem boas emoções que ligam algumas pessoas a este lugar. A fumaça branca carregada pela brisa suave, trazia o cheiro gorduroso do espetinho na brasa, "- me vê mais um", grita o moço acenando com um sinal de positivo concluindo assim o seu pedido de um "- agora de calabresa!".
O espeto de calabresa acompanhado de uma dose de conhaque barato, garante assim o gozo de quem pouco aproveita dessa vida, não era um whisky Johnnie Walker, ou um vinho importado envelhecido em tonéis de carvalho, mas o efeito tal qual, era o mesmo de inebriar certos pontos de suas vidas, corridas, agitadas, sofridas. Lá vem o ônibus, ah não, não é o meu, porém o que estava acontecendo ali? seis rapazes correm em movimentos frenéticos, velozes em busca daquele ônibus que ainda não parou totalmente, não olham para os lados, só para o ônibus, e antes mesmo de parar anunciam de longe "- Água é 1,00, pipoca também" e agitam seus pacotes de pipoca e as garrafas d'água para chamarem a atenção dos potenciais consumidores, "- Lá vem o próximo" grita um dos rapazes para avisar ao outro grupo que o próximo ônibus está perto, e correm assim no meio da autoestrada, como se fossem imortais, para alcançar o ônibus logo que ele chegue e mais uma vez o ciclo se repita, antes do ônibus parar eles já estão a oferecer suas águas e pipocas. De longe parecem guepardos na savana africana correndo em direção a um antílope já prestes a cair, que antes mesmo de sua queda ao chão, é atacado pelas garras do seu predador.
A selva de pedra presencia aqui um predatismo diferente, onde a vida e a morte são, ao mesmo tempo, presa e caçador. Estes vendedores garantem suas vidas arriscando-a, conseguem sua sobrevivência na margem da vida, entre o ônibus e o carro, a vida e a morte, margeiam ali a fronteira mais letal do capitalismo, sem direitos, sem muitas possibilidades, só a força física e a própria vida. Apesar dessas cenas quase suicidas, a vida tão banalizada, é ali regozijada, um lugar pleno de contradições, de sorrisos, abraços, choros e tics nervosos. A troca de posição constante, demonstra que é a pressa que também se faz presente ali, os movimentos de, esticar-se, coloca a mão no queixo, balança a perna, relaxa o corpo, são repetidos até o movimento mais esperado: a entrada no ônibus.
Nesse pedaço de calçada, à margem de um grande hipermercado, cada barraca parece mais um mercadinho que de tudo vende, de tudo se encontra. Os produtos mais apresentados são as 'baganas' chicletes, pipocas, refrigerantes, salgadinhos, mas também viagens e passeios turísticos, churrasquinho, bebidas alcoólicas variadas e sabe-se lá o que mais. Era uma sorte de tudo, que combinava com tudo que ali acontecia, por isso, cada integrante desse tecido espacial tinha seu significado, seu papel. O meu era apenas o de esperar o ônibus e finalmente, ele chegou.

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