Autor: Mia Couto;
Livro: E se Obama fosse africano?;
Editora: Companhia das Letras;
Ano de Publicação: 2011;
Capítulo: As outras violências;
Página: 139;
Veículo: Livro Impresso;
Gênero: Conferência / ensaio retirado de um livro.
Síntese - As outras violências
Livro: E se Obama fosse africano?;
Editora: Companhia das Letras;
Ano de Publicação: 2011;
Capítulo: As outras violências;
Página: 139;
Veículo: Livro Impresso;
Gênero: Conferência / ensaio retirado de um livro.
Capa do livro, disponível em:
http://lojasaraiva.vteximg.com.br/arquivos/ids/3278573/1000375217.jpg?v=637034771482630000Síntese - As outras violências
O mundo surge como uma coisa simplificada em que os culpados são os outros e as vítimas somos sempre nós. Esta facilidade é muito tentadora, mas é uma mentira. A atitude de nos fabricarmos a nós mesmos como simples vítimas é uma das principais razões para os problemas da África e dos africanos. Todo nosso discurso continua centrado na culpabilização do passado colonial e da dominação estrangeira. A culpa é sempre o Outro. Esse outro pode ser uma outra etnia, uma religião. Nós estamos sempre insetos de procurar dentro de nós as causas profundas dos nossos problemas.
Falaremos neste encontro de Não-Violência que é um modo de dizer que falaremos de violência. Ora eu considero que é urgente e imperioso discutir violência em Moçambique, sobretudo por duas razões:
- A primeira razão por que a violência maior atua de modo silencioso, e das poucas vezes que falamos dela falamos da ponta do icebergue. Mas esquecemos que existem formas de violência oculta que são gravíssimas. Esquecemos por exemplo, que todos os dias, no nosso país, são sexualmente violentadas crianças. E que, na maior parte das vezes, os agressores não são estranhos. Nós temos níveis altíssimos de violência doméstica, e, em particular, de violência contra mulher. Mas esse assunto parece ser preocupação de poucos. Existem várias outras formas invisíveis de violência. Existe violência quando camponeses são expulsos sumariamente das suas terras por gente poderosa e não possuem meios para defender os seus direitos. Existe uma violência contida quando, perante o agente corrupto da autoridade, não nos surge outra saída senão o suborno. Existe, enfim a violência terrível que é o vivermos com medo. E existe essa outra violência maior que é considerarmos a violência como um facto normal. Existe, em suma, essa terrível aprendizagem de negarmos em nós mesmos tudo que nos ensinaram como valor humano: o ser solidário com os outros, os que sofrem.
- A segunda razão por que é importante falar de violência em moçambique resulta do facto de persistir o mito de que nós, moçambicanos, somos um povo não violento, um povo ordeiro. Pode ter havido dezesseis anos de guerra civil, de uma guerra cruel, violentíssima, pode ter havido tudo isso recentemente, mas mesmo assim ninguém retira do discurso que construímos sobre nós mesmos que moçambicanos são um povo não violento. Esquecemos que todos os povos do mundo são pacíficos, à partida. Os povos não são um produto genético, imutável. São produto da História. E a História pode facilmente converter os desejos de Paz em violência pessoal e social. Os moçambicanos não são especialmente ordeiros. Também não são especialmente desordeiros. São como todos os povos do mundo: respondem com violência quando se sentem violentados.
Um outro tópico que estamos debatendo neste encontro é chamado ``progresso social´´. Muitas vezes o chamado progresso pode ser uma violência. Pode agir como uma agressão silenciosa contra a sociedades inteiras e sobretudo, contra os mais pobres dessas sociedades. O escritor Bertolt Brecht dizia: ``Do rio que tudo arrasta se diz violento, mas ninguém diz que são violentas as margens que comprimem esse mesmo rio´´.
Nós falamos da reação violenta de cidadãos pobres contra um sistema que produz pobreza. É isto que deve ficar claro. Linchamentos são uma resposta violenta contra uma violência maior que é o crime como sistema de vida e a incapacidade de responsa do Estado perante a crescente criminalidade. O linchamento popular é o rio que transborda. A criminalidade de todos os dias são as margens que comprimem esse rio.
O desespero é saber que esse destino, que chamamos de futuro é comandado por entidades que deixaram de olhar para nós como seres humanos. A violência da rua que vivemos em Maputo e em Chimoio não é má apenas porque é violenta. Ela é negativa porque não produz respostas de organização e de construção de alternativas sociais. Mas ela é sobretudo um sinal revelador de doença. E nós temos de curar a doença e não apenas os sintomas.
Não se trata de uma responsabilidade do governo. Não se pode governar um país como se a política fosse um quintal e a economia fosse uma bazar. Ao avaliar um regime de governação precisamos, no entanto, de ir mais fundo e saber se as questões não provêm do regime mas do sistema e a cultura que esse sistema vai gerando. Pode-se mudar o governo e tudo continuará igual se mantivermos intacto o sistema de fazer economia, o sistema que administra os recursos da nossa sociedade. Nós temos hoje gente com dinheiro. Mas esses endinheirados não são ricos. Ser rico é outra coisa. Ser rico é produzir emprego. Ser rico é produzir riqueza. Os nossos ricos são quase sempre predadores, vivem da venda e revenda de recursos nacionais. Afinal, culpar o governo ou o sistema e ficar por aí é fácil.
A verdade é que muitos dos problemas que nós vivemos resultam da falta de resposta nossa como cidadãos ativos. Resulta de apenas reagirmos no limite quando não há outra resposta senão a violência cega. Grande parte dos problemas resulta de ficarmos calados quando podemos pensar e falar. Martin Luther King dizia: `` Mais grave que o ruído causado pelos homens maus é o silêncio cúmplice dos homens bons que aceitam a resignação do silêncio´´. A vocês que recusam esse silêncio, quero agradecer por essa iniciativa.
Mia Couto, disponível em:


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