Introdução do livro Hit Makers : Como nascem as tendências

Autor: Derek Thompson;
Livro: Hit Makers : como nascem as tendências;
Editora: Haper Collins;
Ano de Publicação: 2018;
Capítulo: Introdução;
Página: 9;
Veículo: Livro Impresso;
Gênero: Introdução de um estudo maior / livro.




                               Síntese - Introdução de Hit Makers


Eu conheci a primeira música que viria amar pela minha mãe. Eu achava que a música era uma relíquia da família, passada adiante de geração em geração. Porém em meu primeiro ano escolar, em uma das noites que passei na casa de amigos da escola na minha cidade natal na virgínia, um jovem amigo girou o botão na pequena caixa de música perto de sua cama e a harmonia de sons digitais ressoaram familiar. Aprendi que a melodia da minha mãe não era nenhum segredo de família. Era espantosamente comum. Existe uma forte possibilidade de você tê-la ouvido dezenas de vezes, talvez milhares. trata-se de "Wiegenlied", de Johannes Brahms.

É inegável que "Wiegenlied" é bela, simples e repetitiva, e estes são todos os elementos necessários a qualquer canção infantil produzida pelas gargantas de pais cansados. Porém uma melodia assim tão universal é também um mistério. Como uma composição alemã do século XIX se tornou umas das músicas mais populares do mundo?



Johannes Brahms - Op.49 No.4 Wiegenlied / Lullaby (original composition)


No século XX, a maioria das canções pop se tornou popular porque foi tocada repetidas vezes no rádio ou em outros meio de transmissão de mídia de massa. As canções abriam seus caminhos aos empurrões até chegarem aos ouvidos dos públicos por meio de alto-falantes em carros, televisores e cinemas. Para gostar de uma música teríamos de encontrá-la ou, sob uma outra perspectiva, a música teria de nos encontrar.

No século XIX, canções de compositores famosos pulavam de uma sala de concerto para a outra, mas mão havia nenhuma tecnologia adequada para levar rapidamente uma canção para o mundo todo. Para apreciar o ritmo lento em que a cultura viajava nos tempos de Brahms, consideremos a vagarosa viagem transatlântica da Nona Sinfonia de Beethoven. A obra estreou em 1824 no Teatro Kaerntnertor, em Viena, quando, segundo rumores, Beethoven estava tão surdo a ponto de não conseguir ouvir os aplausos retumbantes. Já a primeira apresentação da Nona Sinfonia nos Estados Unidos só ocorreu 22 anos mais tarde, na cidade de Nova York. Levou mais nove anos para que a sinfonia fosse tocada em Boston.

Imagine se todas as Obras-Primas artísticas nos dias de hoje levassem 31 anos para cruzar o oceano. O álbum Thriller, de Michael Jackson, estreou em 1982, o que significa que Jackson estaria morto há quatro anos na época em que os londrinos pudessem ouvir a faixa-título e "Billie Jean", em 2013.

Os sinais de rádio não estavam de mudança no final dos anos 1870, mas as famílias alemãs estavam. Enquanto Brahms vivia seu apogeu criativo, a Europa central era um caldeirão de caos, guerra e fome. Nos vinte anos depois da estreia de "Wiegenlied" em Viena em 1869, a imigração alemã para os Estados Unidos estava a todo vapor, tendo registrado nos anos 1880 um pico ainda não superado. Um êxodo histórico de famílias que falavam alemão realizou o que nem o rádio e nenhuma outra tecnologia poderia fazer em 1870. Uma migração transatlântica sem procedentes distribuiu a canção de ninar de Brahms pelos os Estados Unidos.




Este é um livro sobre hits, sobre as poucas produções e as poucas ideias que conseguem popularidade extraordinária e sucesso comercial dentro da cultura pop e da mídia. A tese deste livro diz que, mesmo que muitas das melhores músicas, programas de TV, blockbusters,  memes da internet e aplicativos onipresentes pareçam vir do nada, esse caos cultural é governado por certas regras: a psicologia do porquê de as pessoas gostarem do que elas gostam, as redes sociais através das quais as ideias se disseminam e a economia dos mercados culturais.

Basicamente, este livro faz duas perguntas:
1 - Qual é o segredo para produzir as coisas que as pessoas gostam, na música, em filmes, na televisão, nos livros, jogos, aplicativos e muito mais, pela vasta paisagem da cultura?

2 - Por que alguns produtos fracassam nesses mercados enquanto ideias similares se tornam populares e imensos hits?


As duas perguntas estão relacionadas, mas não são a mesma questão, e a resposta para a primeira delas mudou com o passar do tempo, mais do que a resposta para a segunda. Produtos mudam e modas têm suas ascensões e suas quedas. Porém a arquitetura da mente humana é antiga e as mais básicas necessidades do ser humano são eternas: as necessidades de pertencimento, de escape, de aspiração, de entender, de ser entendido.

A maioria dos consumidores são, ao mesmo tempo, neofílicos, curiosos para descobrirem coisas novas, e profundamente neofóbicos, temendo qualquer coisa nova demais. Os melhores hits foram feitos por artistas que têm o dom de criar instantes de significado ao casar o novo com o antigo, a ansiedade com a compreensão. São arquitetos de surpresas familiares.

É interessante comparar a história de "Wiegenlied", um hit do velho mundo, com a história de um hit com a quintessência do novo mundo, o aplicativo de compartilhamento de fotos Instagram, para procurar os temas comuns da familiaridade e do poder das redes. Como diversos outros aplicativos, o Instagram permite que os usuários tirem fotos e adicionem filtros retro-cinemáticos. O design chegava à quase perfeição para seu propósito: simples e bonito, com formas intuitivas de editar e compartilhar imagens das vidas das pessoas. Porém, nesse espaço havia muitos aplicativos simples e bonitos. Além do mais não foi o Instagram que inventou a ideia dos filtros. O que havia de tão especial em relação ao Instagram? O sucesso do aplicativo deveu-se igualmente à arte e à disseminação.

Na época de Brahms, se alguém quisesse que as pessoas ouvissem sua sinfonia, precisava encontrar músicos e um salão de concertos. A música comercial era escassa e os negócios da música pertenciam às pessoas que controlavam os salões e as gráficas. Hoje em dia, porém, está acontecendo uma coisa interessante. A escassez  cedeu lugar à abundância. O salão de concertos é a internet, os instrumentos são baratos e qualquer um pode compor sua própria sinfonia. O futuro dos hits será democrático, caótico e desigual. Milhões competirão por atenção, uns pouco s felizardos farão muito sucesso e uma minoria microscópica ficará fantasticamente rica.

A revolução na mídia é mais clara nos últimos sessenta anos em produções cinematográficas e em vídeo. A televisão substituiu o filme com a mídia mais popular de contação de histórias visuais junto com uma imensa mudança na atenção e nos dólares, passando do ingresso para cinema uma vez por semana às contas de TV a cabo, cujos pagamentos mensais suportam um vasto ecossistema de esportes ao vivo, dramas tanto brilhantes quanto formulados, assim como infinitos reality shows.

Em 2012, pela primeira vez na história, os americanos passaram mais tempo interagindo com dispositivos digitais como laptops e telefones do que com a televisão. Em 2013, o mundo produziu quase 4 bilhões de metros quadrados de telas de LCD, ou cerca de oitenta polegadas quadradas per capita. Em regiões em desenvolvimento como a China, a Indonésia e a África subsaariana, o público pulou a era dos desktops e laptops por completo e entrou nessa já com computadores em seus bolsos. A tecnologia sempre moldou o entretenimento, assim como sempre moldou nossas expectativas quanto-a que tipo de conteúdo é "bom". 

Um livro que procura explicar os gostos de bilhões de pessoas e o sucesso ou fracasso de milhões de produtos presumirá algumas coisas que, embora sejam defensíveis no conjunto, falham em responder por algumas exceções. Um dos temas deste livro é que os públicos estão sedentos por significado e suas preferências são guiadas por uma interação entre o complexo e o simples, o estímulo de coisas novas e um profundo conforto com que é familiar. Em vez de achar atalhos que supersimplifiquem os motivos pelos quais alguns produtos culturais são bem-sucedidos, meu objetivo é contar uma história complexa de uma forma simples.

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