O Homem Cordial




Autor: Sérgio Buarque de Holanda;

Livro: Raízes do Brasil;

Editora: Companhia das Letras;

Ano de Publicação: 1995;

Edição: 26 e 14° reimpressão;

Capítulo: 05- O Homem Cordial;

Parágrafos do capítulo: 31;

Veículo: Livro Impresso.


(Edição Crítica do Livro)

Síntese:


https://pt.wikipedia.org/wiki/Ra%C3%ADzes_do_Brasil

O capítulo cinco inicia-se falando sobre o conflito entre família e Estado. Não existe, entre o círculo familiar e o Estado, uma gradação, mas antes uma descontinuidade e até uma oposição. Sendo a indistinção fundamental entre as duas formas é prejuízo romântico que teve os seus adeptos mais entusiastas durante o século XIX. Será por meio da transgressão da ordem doméstica e familiar é que nasce o Estado e que o simples individuo se faz cidadão, ante as leis da cidade. 

O autor fará uma comparação, colocando a família em todos os vértices da sociedade. Então em todas as culturas, o processo pelo qual a lei geral suplementa a lei particular faz-se acompanhar de crises mais ou menos graves ou prolongadas, que podem afetar profundamente a estrutura da sociedade. O novo regime tornava mais fácil, além disso, ao capitalista, explorar o trabalho de seus empregados, a troca de salários ínfimos. Havia nesse processo fomentado em uma produção em larga escala, a organização de grandes massas de trabalho e complicados mecanismos para colossais rendimentos, acentuou, aparentemente, e exacerbou a separação das classes produtoras, tornando inevitável um sentimento de irresponsabilidade, da parte dos que dirigem, pelas vidas dos trabalhadores manuais.

Em torno desse sistema a crise que acompanhou a transição do trabalho industrial aqui assinalada pode dar uma ideia pálida das dificuldades que se opõem à abolição da velha ordem familiar por outra, em que as relações sociais, fundadas em princípios abstratos, tendem a substituir-se aos laços de afetos e de sangue. É notório onde quer que prospere e assente em bases muito solidas a ideia de família – e principalmente onde predomina a família de tipo patriarcal- tende a ser precária e a lutar contra restrições a formação e evolução da sociedade segundo conceitos atuais. Contudo nem sempre, é certo, as novas experiências bastavam para apagar neles o vinco doméstico, a mentalidade criada ao contato de um meio patriarcal, tão oposto as exigências de uma sociedade de homens livres e de inclinação cada vez mais igualitária. 

Entretanto é possível acompanhar, ao longo da nossa história, o predomínio constante das vontades particulares que encontram seu ambiente próprio em círculos fechados e pouco acessíveis a uma ordenação impessoal. Dentre esses círculos, foi sem dúvida o da família aquele que se exprimiu com mais força e desventura.

Portanto, no homem cordial, a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. Nosso temperamento admite formulas de reverência, e até de bom grado, mas quase somente enquanto não suprimam de todo a possibilidade de convívio mais familiar. A vida íntima do brasileiro nem é bastante coesa, nem bastante disciplinada, para envolver e dominar toda a sua personalidade, integrando-a, como peça consciente, no conjunto social.




O homem cordial no país do presidente Jair Bolsonaro possui traços e formas muito bem definidas. Sérgio Buarque trouxe esse termo com o propósito de mostrar a figura do típico brasileiro patriarcal, por inúmeras vezes machista e misógino do período pré-industrialização do meio rural. Mas no entorno de uma sociedade moldada em um passado cheio de sangue e chagas, onde a história é esquecida e em seu lugar posto o delírio da estupidez, a figura da cordialidade apenas se enraizaria suscitando a vertigem compacta pós eleição de 2018.

O impulso do sentimentalismo que cega a razão dos brasileiros cordiais é comumente interligada a discursos errôneos da elite. Movidos pelo amor, ódio, inferioridade, patriotismo o sujeito que preserva os preceitos familiares, sendo este voltado para a religiosidade; age na contramão da democracia, aceitando falsas promessas e reproduzindo deliberadamente falácias alienadoras.

O Brasil de 2019 aparente de mentiras, fake news e falcatruas. Com o cenário reacionário bem mais caótico, encontra seus apoiadores enérgicos de gentileza. A política é feita pela emoção, doxa sobressalta e a racionalidade em conjunto com a episteme se ofusca desaparecendo do corpo social.


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Pepe Mujica citou "transformamos pobres em consumidores e não em cidadãos." A máquina capitalista juntamente com as ideologias impostas pela classe burguesa transforma o cidadão carente de qualidade de vida em uma figura singular ignorante. É possível observar tal situação quando o setor público se esvai e capital privado emana dos direitos do povo.

No livro Resgatar o Brasil de Jessé Souza, a escritora Maria Lúcia Fatorelli explicará como o cidadão brasileiro é roubado por um grupo pequeno de privilegiados, as práticas são de juros abusivos, contratos de swap cambial, securitização de créditos com argumento de controlar à inflação, esses empresários desviam dinheiro público alimentando assim um ciclo vicioso e de enriquecimento para benefício próprio. A cordialidade do brasileiro e brasileira é aparente em todos os vértices da estrutura movediça que a sociedade do Brasil fora construída.

Em um dos momentos mais corrosivos da história, onde a doença social, a necropolítica, o genocídio indígena, o ecocídio se fazem presente e marcante. Além dessa convulsão de vender as estatais (por preços baixíssimos) a empresários estrangeiros (grande maioria norte-americanos). É possível ver a dimensão do impacto do homem cordial, essa caracterização aprofunda o cenário político para o abismo. Para consertar essa deturpação é necessário voltar ao passado, no entorno de 1889 com o início do que viria a ser chamado de República Velha e analisar os erros acumulativos desde 1500 que culmina a essa imagem tipificada do brasileiro aprazível.



Comentários

  1. Achei uma explicação muito rasa, gostaria que tivesse esclarecido mais o seu ponto de vista a partir da perspectiva do autor sob a ótica do que é retratado na obra. Mas, apesar dos pesares, gostei, nota 9.9

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